“They don’t care about us”. É esse o nome do clipe gravado por Michael Jackson, em 1996, no morro Santa Marta, no Rio de Janeiro. Nesse domingo (4), 22 anos depois, convidados do Social Gastronomy Summit Rio, de várias nacionalidades, estiveram no mesmo lugar para mostrar que se importam, sim. O palco foi a Quadra do Santa Marta, onde o projeto Comida é Afeto promoveu uma conversa sobre consumo de alimentos, fome e uma visão sistêmica sobre a alimentação. O evento faz parte da construção de uma comunidade global de Gastronomia Social que entende a comida como forma de transformação da sociedade. 

A atividade começou com uma roda, em que os participantes puderam se conhecer melhor e olhar nos olhos um do outro, observando suas semelhanças e diferenças. Passado o primeiro momento, as integrantes do projeto Comida é Afeto explicaram em que consiste a iniciativa: combinar uma ideologia de informação, sensibilização e prática no meio social, abrindo espaço na revisão da relação de consumo de alimentos. “O alimento é um bem comum, um direito inegociável. Mas, ao mesmo tempo, é uma mercadoria. Dentro desse sistema global e hegemônico, o agronegócio responde a 74.7%, no trabalho análogo à escravidão no Brasil. Apesar do tamanho do país, temos mais focos de monoculturas do que de comida para a população como mandioca, arroz e feijão. Dividimos o solo para produzir mercadoria, commodities e combustível”, explicou Juliana Dias, professora no Comida é Afeto, e pesquisadora sobre educação, ciência e saúde em seu pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Juliana também contou sobre a situação atual do Brasil, que não está no Mapa da Fome da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura – há 4 anos, mas está perto de voltar à uma situação crítica. Para ela, há uma “importante relação entre a fome e a extrema pobreza”, e “nossa alimentação está ligada ao território e à cultura” 

Idealizadora do Comida é Afeto, a comunicóloga Cláudia Lima mostrou que “a visão que trazemos aqui é que a obesidade e a fome não são problemas simples, não tem uma única via. A indústria faz parte de um resultado que nós, como sociedade, produzimos a partir de nossas escolhas individuais. Precisamos ter uma visão global para estimular o diálogo sobre isso.” 

Após a conversa, os participantes fizeram um debate sobre como construir ambientes que favoreçam um sistema alimentar mais saudável, e Cláudia completou com a importância de propiciar esse intercâmbio entre culturas e realidades diferentes: “É importante para todos nós. A gente só caminha para frente com a diversidade – os olhares diversos, as histórias diversas e o incômodo. Se não fizermos diálogo entre os diferentes, não abrirmos espaço para essa diversidade dialogar e, como mundo, perdemos muito. A gente não evolui. Só a partir da empatia, do olhar do outro, somos capazes de chegar a um novo caminho.” 

Texto: Lucas Mathias

Fotos: Junior Albuquerque